Antes de mais nada, vejam este vídeo:
Anoushka Shankar plays «Pancham se gara»
Anoushka Shankar, como o sobrenome permite supor, é filha de Ravi Shankar, o gênio da cítara indiana.
Viu o vídeo? Se não viu, veja pelo menos a segunda metade. Veja. Insisto: veja. A insistência é justificada. Você só terá condições de responder a pergunta seguinte se realmente viu o vídeo e a performance dos músicos, em especial de Anoushka Shankar.
A pergunta é: como floresce a grande arte?
Qualquer observador, por mais simplório que seja, conseguirá perceber duas coisas vendo o vídeo acima.
1) O que o vídeo mostra é grande arte, indubitavelmente.
2) Tocar cítara indiana deve ser algo difícil. Numa escala que vai de 0 para «Atirei o pau no gato» até 10 para os «Concertos de Brandenburgo», tocar cítara indiana com a destreza de Anoushka Shankar deve estar em 9,97.
E poderá concluir, em resposta à pergunta proposta, que grande arte só floresce onde há estudo, prática, disciplina e ascendência:
— Estudo e prática para aprender efetivamente.
— Disciplina para manter-se estudando e praticando.
— Ascendência para que você não tenha que reinventar a roda e para ter quem o ajude nessa trajetória -- pode ser o pai-gênio-da-cítara-indiana, pode ser um professor, um instrutor ou qualquer pessoa que domine a arte que se dispôs a transmitir.
Ainda fazendo referência ao vídeo, é possível crer que Anoushka Shankar tornou-se realmente a herdeira da tradição de Ravi Shankar fazendo «experiências musicais»? Ou ela chegou aonde chegou estudando a arte da cítara com reverência e constância? Em arroubos adolescentes ela rasgou as capas dos LPs do pai ou os ouviu com atenção, encontrando neles fonte de estudo e inspiração? Ela estudou sanfona, violão, bateria, guitarra, fagote, violoncelo, flauta, gaita e trompete ou concentrou-se na cítara indiana e fez deste instrumento sua própria vida?
Se você viu o vídeo e respondeu as perguntas acima está em condições de seguir com a leitura deste texto sem torcer o nariz para o que encontrará nas próximas linhas.