06 Maio 2012
Sua prática pessoal de yoga em 10 passos
1) Sua prática pessoal de yoga começa com sua decisão de praticá-lo. A firme disposição para dedicar-se à prática é o que algumas pessoas chamam de abhyasa, a disciplina, a determinação. É isto que o levará da prática ao estudo, porque uma coisa é repetir técnicas do Hatha Yoga, outra coisa é estudar seriamente este sistema e compreender as ligações entre essas técnicas e moksha, a libertação.
22 Abril 2012
O que são asanas e para quê servem?
A profusão de métodos de ginástica inspirados nas posturas do Hatha Yoga produz uma confusão previsível. Se centenas, milhares de pessoas começassem a dizer que 2+2=5, não seria difícil pensar na possibilidade de que a matemática que você aprendeu estava errada.
Há cerca de cinco décadas os asanas têm sido praticados e ensinados como «posturas físicas». Por que deveríamos pensar em outra definição? Por um motivo simples: praticado da forma incorreta, asana é e sempre será «postura física» e com isso torna-se inevitável encerrar a prática na perfeição corporal; praticado da forma correta, o asana realmente coloca o praticante na direção de moksha. E, como sabemos, em moksha está condensado o sentido e a substância do yoga.
Esta idéia fica evidente na leitura deste artigo: A Prática dos Asanas, de autoria do Guruyogi Matsyendranath Maharaj, representante russo da Natha Sampradaya, a tradição dos fundadores do Hatha Yoga. O texto foi traduzido por Guruyogi Shankarnath Maharaj, representante da Natha Sampradaya no Brasil.
Um bom complemento à leitura deste artigo são os 84 asanas tradicionais do Hatha Yoga, compilados pelo mesmo mestre russo em seu site. Embora as informações estejam em russo, estou certo de que as imagens serão de interesse à maioria dos praticantes sérios.
17 Março 2012
Para que serve a tradição?
Em fevereiro passado a revista Época publicou um artigo que começava com um subtítulo de tempero folhetinesco: «O lado perigoso da ioga -- Um novo livro gera polêmica ao divulgar que a milenar prática indiana pode causar contusões graves e até danos cerebrais. Quando a ioga pode machucar?».
Sobre a matéria, que merece ser lida com atenção e cuidado, três comentários:
1) Todas as práticas que exigem esforço físico e se propõem a trazer mudanças importantes às pessoas oferecem riscos. Portanto, são «perigosos» em alguma medida.
2) Todas as práticas desse tipo tornam-se mais ou menos perigosas conforme o tipo de profissional que oferece orientação -- exatamente como acontece em qualquer área ou especialidade profissional, independentemente da existência de formalidades, regulamentos, entidades de classe etc.
3) O tipo de «yoga» a que a matéria se refere não é «o» yoga, mas o festival de métodos e «estilos» criados a partir dos anos 60 sob inspiração remota do hathayoga. Por exemplo, peça a algum professor de um desses estilos explicar a necessidade e o sentido de praticar esta postura:
24 Janeiro 2012
Riscos e paradoxos do ensino do yoga II
No início de meus estudos de yoga deparei-me com a transcrição de uma entrevista com um dos mais antigos instrutores do método Iyengar. Em determinado momento o entrevistador perguntou a ele o que significava ser um yogin. Surpeendentemente, o instrutor respondeu que não era um yogin, deixando subentendido que não poderia responder a pergunta. Em seguida explicou que nunca teve a pretensão de ser um yogin.
Fiquei surpreso.
«Oficialmente» esse professor ensina «yoga». O nome «yoga» está estampado nos certificados que ele assina e nos livros que ele recomenda. Yoga é o cerne de tudo o que ele diz fazer, das conversas que ele mantém, pessoas vão até ele e se interessam por seus cursos e workshops porque se trata de yoga. Mas ele não se considera um yogin.
Como isso é possível?
14 Janeiro 2012
Yoga é religião
«Isto não é uma religião», disse Marcel Duchamp.
Nota prévia: se você é um experiente praticante ou professor de yoga, seja de qual «estilo» for, provavelmente discordará do que o título afirma. Se é um leigo com formação religiosa abraâmica (cristianismo, judaísmo, islamismo), provavelmente pensou «eu sabia! essa corja hinduísta quer nos afastar de nossa fé!» quando viu o título deste texto. Nenhuma das duas reações condiz com o sentido e com os objetivos deste texto. Portanto, peço encarecidamente a você, leitor, que o acompanhe até o fim. Obrigado.
***
Se você não é hinduísta e não pratica yoga, em algum momento deve ter se perguntado sobre o lado religioso do yoga. Todos sabemos que o yoga nasceu na Índia e que este país possui tradições religiosas antigas e complexas. A maioria das escolas de yoga é ornada com imagens de divindades hindus e com freqüência usam-se mantras que são orações hinduístas e há elementos doutrinais óbvios, como aquele que explica o «namaste» como uma reverência entre deuses.
Mesmo assim, se você conversar com qualquer professor de yoga ele ou ela lhe dirá que o yoga não é uma religião, que o yoga não tem dogmas, não impede que a pessoa mantenha sua fé original etc. Tem divindades, símbolos, orações, doutrina, rituais, fala-se de espiritualidade o tempo todo, mas não se trata de uma religião? Conta outra, vai.
Por que, diante de tantas evidências de que o yoga é uma religião, dele se diz o contrário?
04 Dezembro 2011
Por que não buscar «experiências de yoga»
Antes de mais nada, vejam este vídeo:
Anoushka Shankar plays «Pancham se gara»
Anoushka Shankar, como o sobrenome permite supor, é filha de Ravi Shankar, o gênio da cítara indiana.
Viu o vídeo? Se não viu, veja pelo menos a segunda metade. Veja. Insisto: veja. A insistência é justificada. Você só terá condições de responder a pergunta seguinte se realmente viu o vídeo e a performance dos músicos, em especial de Anoushka Shankar.
A pergunta é: como floresce a grande arte?
Qualquer observador, por mais simplório que seja, conseguirá perceber duas coisas vendo o vídeo acima.
1) O que o vídeo mostra é grande arte, indubitavelmente.
2) Tocar cítara indiana deve ser algo difícil. Numa escala que vai de 0 para «Atirei o pau no gato» até 10 para os «Concertos de Brandenburgo», tocar cítara indiana com a destreza de Anoushka Shankar deve estar em 9,97.
E poderá concluir, em resposta à pergunta proposta, que grande arte só floresce onde há estudo, prática, disciplina e ascendência:
— Estudo e prática para aprender efetivamente.
— Disciplina para manter-se estudando e praticando.
— Ascendência para que você não tenha que reinventar a roda e para ter quem o ajude nessa trajetória -- pode ser o pai-gênio-da-cítara-indiana, pode ser um professor, um instrutor ou qualquer pessoa que domine a arte que se dispôs a transmitir.
Ainda fazendo referência ao vídeo, é possível crer que Anoushka Shankar tornou-se realmente a herdeira da tradição de Ravi Shankar fazendo «experiências musicais»? Ou ela chegou aonde chegou estudando a arte da cítara com reverência e constância? Em arroubos adolescentes ela rasgou as capas dos LPs do pai ou os ouviu com atenção, encontrando neles fonte de estudo e inspiração? Ela estudou sanfona, violão, bateria, guitarra, fagote, violoncelo, flauta, gaita e trompete ou concentrou-se na cítara indiana e fez deste instrumento sua própria vida?
Se você viu o vídeo e respondeu as perguntas acima está em condições de seguir com a leitura deste texto sem torcer o nariz para o que encontrará nas próximas linhas.
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