24 Janeiro 2012

Riscos e paradoxos do ensino do yoga II


No início de meus estudos de yoga deparei-me com a transcrição de uma entrevista com um dos mais antigos instrutores do método Iyengar. Em determinado momento o entrevistador perguntou a ele o que significava ser um yogin. Surpeendentemente, o instrutor respondeu que não era um yogin, deixando subentendido que não poderia responder a pergunta. Em seguida explicou que nunca teve a pretensão de ser um yogin.

Fiquei surpreso.

«Oficialmente» esse professor ensina «yoga». O nome «yoga» está estampado nos certificados que ele assina e nos livros que ele recomenda. Yoga é o cerne de tudo o que ele diz fazer, das conversas que ele mantém, pessoas vão até ele e se interessam por seus cursos e workshops porque se trata de yoga. Mas ele não se considera um yogin.

Como isso é possível?


14 Janeiro 2012

Yoga é religião

«Isto não é uma religião», disse Marcel Duchamp.

Nota prévia: se você é um experiente praticante ou professor de yoga, seja de qual «estilo» for, provavelmente discordará do que o título afirma. Se é um leigo com formação religiosa abraâmica (cristianismo, judaísmo, islamismo), provavelmente pensou «eu sabia! essa corja hinduísta quer nos afastar de nossa fé!» quando viu o título deste texto. Nenhuma das duas reações condiz com o sentido e com os objetivos deste texto. Portanto, peço encarecidamente a você, leitor, que o acompanhe até o fim. Obrigado.

***

Se você não é hinduísta e não pratica yoga, em algum momento deve ter se perguntado sobre o lado religioso do yoga. Todos sabemos que o yoga nasceu na Índia e que este país possui tradições religiosas antigas e complexas. A maioria das escolas de yoga é ornada com imagens de divindades hindus e com freqüência usam-se mantras que são orações hinduístas e há elementos doutrinais óbvios, como aquele que explica o «namaste» como uma reverência entre deuses.

Mesmo assim, se você conversar com qualquer professor de yoga ele ou ela lhe dirá que o yoga não é uma religião, que o yoga não tem dogmas, não impede que a pessoa mantenha sua fé original etc. Tem divindades, símbolos, orações, doutrina, rituais, fala-se de espiritualidade o tempo todo, mas não se trata de uma religião? Conta outra, vai.

Por que, diante de tantas evidências de que o yoga é uma religião, dele se diz o contrário?

04 Dezembro 2011

Por que não buscar «experiências de yoga»


Antes de mais nada, vejam este vídeo:

Anoushka Shankar plays «Pancham se gara»

Anoushka Shankar, como o sobrenome permite supor, é filha de Ravi Shankar, o gênio da cítara indiana.

Viu o vídeo? Se não viu, veja pelo menos a segunda metade. Veja. Insisto: veja. A insistência é justificada. Você só terá condições de responder a pergunta seguinte se realmente viu o vídeo e a performance dos músicos, em especial de Anoushka Shankar.

A pergunta é: como floresce a grande arte?

Qualquer observador, por mais simplório que seja, conseguirá perceber duas coisas vendo o vídeo acima.

1) O que o vídeo mostra é grande arte, indubitavelmente.

2) Tocar cítara indiana deve ser algo difícil. Numa escala que vai de 0 para «Atirei o pau no gato» até 10 para os «Concertos de Brandenburgo», tocar cítara indiana com a destreza de Anoushka Shankar deve estar em 9,97.

E poderá concluir, em resposta à pergunta proposta, que grande arte só floresce onde há estudo, prática, disciplina e ascendência:
— Estudo e prática para aprender efetivamente.
— Disciplina para manter-se estudando e praticando.
— Ascendência para que você não tenha que reinventar a roda e para ter quem o ajude nessa trajetória -- pode ser o pai-gênio-da-cítara-indiana, pode ser um professor, um instrutor ou qualquer pessoa que domine a arte que se dispôs a transmitir.

Ainda fazendo referência ao vídeo, é possível crer que Anoushka Shankar tornou-se realmente a herdeira da tradição de Ravi Shankar fazendo «experiências musicais»? Ou ela chegou aonde chegou estudando a arte da cítara com reverência e constância? Em arroubos adolescentes ela rasgou as capas dos LPs do pai ou os ouviu com atenção, encontrando neles fonte de estudo e inspiração? Ela estudou sanfona, violão, bateria, guitarra, fagote, violoncelo, flauta, gaita e trompete ou concentrou-se na cítara indiana e fez deste instrumento sua própria vida?

Se você viu o vídeo e respondeu as perguntas acima está em condições de seguir com a leitura deste texto sem torcer o nariz para o que encontrará nas próximas linhas.

27 Novembro 2011

Mudanças no site


Neste fim de semana fiz algumas mudanças visuais no site. A estrutura e o conteúdo se mantiveram inalterados -- e a expectativa é manter as atualizações regulares com artigos e outras reflexões sobre o yoga.

Como muitos já notaram, a principal mudança foi no logotipo de nossa escola. A imagem atual alude ao Gorakhnath Mandir, o Templo de Gorakhnath, o fundador da Natha Sampradaya, a tradição dos criadores do Hatha Yoga.

O Gorakhnath Mandir é uma construção majestosa, situada na cidade de Gorakhpur, ao norte da Índia.

(clica na imagem para ampliar)

Com a mudança do logotipo estabeleceu-se um novo padrão cromático, o que exigiu a reforma visual em todo o site.

Espero que as modificações sejam bem recebidas. Como sempre, opiniões, críticas construtivas e sugestões são sempre bem-vindas.

19 Novembro 2011

Para que não haja dúvidas


Vinyasa não é yoga.
Ashtanga Vinyasa Yoga não é yoga.
Hot Yoga não é yoga.
Hatha Yoga Contemporâneo não é yoga.
Iyengar Yoga não é yoga.
Power Yoga não é yoga.
Meditação do Yoga não é yoga.
Vedanta não é yoga.
Budismo não é yoga.
Ayurveda não é yoga.
Yogaterapia não é yoga.
Yoga em cordas não é yoga.
Yoga em duplas não é yoga.
Yoga com blocos, cadeiras, bolsters e cintos não é yoga.
Yoga na parede não é yoga.
Yoga para mulheres não é yoga.
Yoga para crianças não é yoga.
Yoga para idosos não é yoga.
Yoga para gestantes não é yoga.
Yoga para surfistas não é yoga.
Yoga para os olhos não é yoga.
Yoga facial não é yoga.
Yoga do riso não é yoga.
Yoga hormonal não é yoga.

Antes que lhe ocorram as usuais réplicas, antecipo-me:

1) Sim, isso é mais necessário do que você imagina.
2) Isso não é opinião, mas a descrição de um fato.
3) Portanto, acuse-me de ter sido breve, não de ter faltado com a verdade. Numa outra ocasião posso esclarecer em vez de apenas citar. Uma dica está na imagem que abre este post.
4) Toda crítica deve ser precedida pela reflexão.

29 Outubro 2011

Yoga não se discute?

Caos. Realmente.

As pessoas confundem intolerância com nervosismo, irritação e revolta. Não vislumbram que é possível ser crítico e intolerante sem mover um músculo do rosto, sem desviar-se um milímetro do conhecimento de si mesmo. E não percebem que com essa confusão revelam algo sobre si mesmas, porque se lhes fosse possível fazer essas coisas -- criticar sem se desviar -- não tomariam a crítica alheia como expressão de fraqueza ou de imaturidade emocional. E, talvez, lhes seria possível considerar, por um instante apenas, que a crítica tem alguma razão de ser.

No yoga, essa forma de encarar a crítica levou a uma intolerância a toda crítica. Existe uma proibição velada de manifestar-se contra o  que quer que seja. Mesmo que a crítica seja, na verdade, um convite expresso para a discussão de temas importantes, as respostas possíveis resumem-se a três: